Haicais

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I.

Beijo sua boca

Prazer fluido desliza

Sápida saliva

II.

Arrepia a alma

Tua língua molhada

Escorregaaaaaaando

III.

Rijo a olhar-me assim

Teu hirto encarnado falo

Esbelto carmim

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O quarto da infância

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A gente foi para a feira hippie de Belo Horizonte escolher a decoração do quarto novo. Até então, eu e minha irmã dividíamos o quarto. Mas na casa nova – para a qual a mudança estava sempre sendo adiada – eu teria um quarto só para mim, rosa e azul. Essas foram as cores que eu escolhi, enquanto minha irmã, sempre mais discreta, quase blasé, preferiu lilás e branco para o dela.

A cama continuaria sendo a mesma: com a exagerada cabeceira de madeira, alta e toda talhada em curvas e voltas, como pequenas ondas que culminavam numa ponta também arredondada. Devia ser moda naquela época. A dos meus pais tinha um relevo na madeira, que parecia um abacaxi. Acho que a ideia era ser chique, mas, na verdade, era meio brega.

Compramos uma colcha de cama dupla face xadrezinha, azul de um lado, rosa do outro. Achamos também na feira, uns leques de porcelana para pendurar na parede, um azul e um rosa, e uns rostinhos de pierrot, também de porcelana.

Mas o que eu mais gostei foram a escrivaninha e as prateleiras de tubos modulares. Me faziam me sentir mais velha. As da minha irmã eram brancas, as minhas rosas. Nas prateleiras, eu coloquei minhas bonecas e uns bichinhos de pelúcia, mas eu não tinha muitos. Queria ter muitos! Quando, com um certo atraso, fui à Disney pela primeira vez, voltei com mais de vinte. E sobre a mesa eu deixava meus livros da escola, embora eu só fizesse dever de casa na mesa da sala. Eu deixava também sobre a mesa meu diário, com cadeado e um copo cheio de canetas. Eu adorava poder guardar as canetinhas e itens de papelaria num lugar só meu.

A coisa mais bonita do meu quarto era uma boneca de porcelana que minha mãe trouxe da Alemanha, quando eu tinha nove anos. Ela trouxe uma de cabelo liso, louro escuro, de olhos claros, para mim, e uma de cabelos pretos, ondulados, e com um rostinho mais redondo, para minha irmã. Eu me achava igualzinha àquela boneca, embora não fosse. Ela ficava sentada sobre a minha cama durante o dia, encostada na cabeceira rococó durante o dia. À noite, eu a deitava ao lado da cama, sobre uma almofada de crochê rosa, que a vovó Maria bordou para mim, e a cobria com uma fronha, para ela não passar frio.

As paredes do quarto – e da casa toda – eram de madeira escura. Na adolescência, elas viraram um mural gigante, onde eu e minhas amigas riscávamos de giz. Minha mãe odiava, dizia que piorava minha alergia, mas a gente continuava escrevendo e apagando e desenhando com cores novas. Roubamos uma caixa de giz da escola.

A janela do quarto dava para a varanda de trás, para o campo de futebol, para o fim da rua, onde os carros não costumavam passar. Mais tarde, já crescida, eu fui notar o silêncio que fazia ali e as visitas diárias dos passarinhos, que eu parecia não perceber na infância. Por essa janela, eu passava a Barbie, o Ken, suas roupinhas e outros objetos para montar a casinha deles do lado de fora. Quando minhas pernas encompridaram um pouco mais, eu pulava por ela já calçada com meus patins, que me deixavam ainda mais alta, e ficava a tarde inteira deslizando para lá e para cá.

Meu quarto era quentinho e escuro. Um quarto de menina, que eu tive a sorte de ter.

Por extenso

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Mais ou menos anda a vida
Aspiro um mundo distante, quimérico, mas
Respiro a fumaça da cidade. Preta. Ressecando-me por dentro.
Corro atrás dos dias, do tempo
Esperando que um tapete mágico venha me buscar.
Leva-me, oh, vento! Para longe, numa lufada.
Lentamente suspenda-me deste banal cotidiano
E me faça pousar sobre um campo de flores.

Caminharei sob o sol delicado da manhã
Assistirei, dia após dia, uma semente brotar até virar árvore
Saltarei sobre córregos e riachinhos manantes
Tateando texturas de folhas peludas, secas, espetadas…
Rirei de um macaco que me olha de cima de um galho
Ouvindo o eco das minhas gargalhadas batendo no paredão de pedra.

Carta para uma escritora

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Querida escritora mirim,

Os anos decorridos não me permitem lembrar seu nome nem o título do seu livro. De qualquer forma, escrevo esta carta de agradecimento, entrego estas palavras ao espaço e espero que uma agradável sensação de reconhecimento aqueça seu coração.

Acredito que tenhamos mais ou menos a mesma idade. Eu tinha uns oito anos quando te conheci. Foi por meio de um intercâmbio de livros promovido pela professora Margarida. Cada aluno trazia um ou dois livros de casa e a ideia era que até o final da nossa terceira série tivéssemos lido e fichado o maior número deles possível. Montamos uma biblioteca no fundo da sala de aula. Cobrimos as prateleiras com papel contact colorido, a professora trouxe de casa um tapete e conseguimos almofadas grandes estampadas. Assim nosso cantinho de leitura me pareceu irresistível.

Meu primeiro livro pertencia a uma série de histórias cujo final cabia ao leitor escolher. A cada duas ou três páginas, tínhamos a opção de seguir com a trama para um ou outro ponto. Eu ficava fascinada com as continuidades possíveis que dependiam apenas da minha escolha. Dava para ler o livro múltiplas vezes, explorando as tantas alternativas que se apresentavam. Naquela época eu não sabia que os tais livros serviam como uma metáfora para a vida, que me esperava ao virar a esquina.

Seu livro chegou-me às mãos lá para maio. Tinha ilustrações de árvores com frutinhas vermelhas, cercas-vivas com flores rosa choque formando uma moldura em torno da página e, no meio, as palavras: poemas e histórias rodeadas por cores vivas.

Não tenho lembrança do tema ou das personagens do seu livro, mas minha memória redesenha nitidamente as seguintes palavras em tinta preta logo abaixo da sua assinatura: “Oito anos”. Você tinha OITO ANOS como eu e já tinha publicado seu próprio livro! Meu coração chegou a acelerar agora com esta recordação. Não me espanta que ela me encha os olhos de boas lágrimas. É que naquele dia eu soube que poderia escrever também, e já. Seu livro regou uma sementinha que havia sido plantada em outro doce momento da minha infância. Ela vinha sendo alimentada pelos volumes infanto-juvenis que os coleguinhas trouxeram de casa, se fortalecendo com o adubo de uma porção de histórias e aí veio você, com sua singela produção infantil, que fez o primeiro raminho verde despontar na terra molhadinha da minha imaginação. Nasceu naquele instante a escritora que vive aqui dentro a me atormentar.

Depois vieram os reconhecidos mestres, José de Alencar, Machado de Assis, Eça de Queiroz, minha amada Clarice, Philip Roth, Javier Marias, Mark Twain, Hemingway, Kundera, Lionel Shriver… Eles e tantos outros continuam sendo meus professores, minhas inalcançáveis metas, mas foi você, e é a quem devo meu profundo e primeiro agradecimento, que me permitiu acreditar que era possível.

Fica aqui meu “muito obrigada”.

Centímetros

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Foto de Marcos Davi

Quem passa por esses dois velhos que se cruzam diante de um muro fitando o chão não vê o incêndio ateado dentro de cada peito. Não enxerga a densidade do ar naqueles poucos centímetros que os separam e desapercebe-se do fato de que os olhares não se cruzam. Parece que quando envelhecemos perdemos a coragem de cravar olho no olho. Coragem? Energia? Não sei. Acho que não tenho mais é disposição de segurar o coração bombeando sangue num ritmo tão intenso quando me afrontam as pupilas alheias. Meus filhos me acham forte: “Mamãe tem saúde de ouro!”, afirmam orgulhosos. Saúde mesmo é cruzar o caminho com a história e ter fôlego para encará-la frente a frente.

Ai, Deus! Aos setenta e quatro não posso nem sequer bancar a inocente, desavisada. Nessa roda da vida eu já dei algumas voltas, mas ainda assim me assusto ao vê-la insistir em parar no mesmo lugar. Como é que nesta idade, viúva, avó de quatro, essa minha espinha tem a ousadia de estremecer de cima abaixo!? Por causa de uma lembrança… De um lábio tocando o outro lentamente… Sei bem hoje e o sabia também na primeira vez que seu cotovelo áspero roçou o meu sobre a mesa, sob uma desculpa qualquer, e seus pelos dourados tocaram minha pele lisa e bronzeada de final do verão. Ai, ai…  Como eu ia dizendo, eu sabia que jamais voltaria a se repetir um encontro como esse. Sim, amei de novo. Sim, casei-me. Sim provei outros homens e me deleitei com outros prazeres. Mas nosso contato foi único porque nele uma pele reconheceu a outra como se em algum ponto do tempo e do espaço elas já tivessem sido uma só.

Há quem já tenha experimentado isso. Aqueles poucos privilegiados que, como eu,  foram presenteados com uma gota que seja do que eu imagino ser fluido corporal de anjo (ou de demônio!) manipulado minuciosamente pelos deuses e injetado na corrente sanguínea do afortunado humano. Se algum desses felizardos tivesse a chave deste diário e lesse esta descrição, sem dúvida se identificaria com a sensação que um dia desfrutei ao lado deste hoje velho que cruza meu caminho de olhos para o chão. Nossos encontros tinham um quê de arrebatador. Quando estávamos juntos, estávamos sobrepostos, meu corpo já não era meu, já não era eu apenas. Era como se as mãos dele fossem as minhas a me tocar. Como se minha boca me sorrisse diante de mim e os poros dele exalassem meu cheiro e meu suor. A respiração ofegante que saía dele vinha dos meus pulmões. Os dois éramos uma coisa só. Indissolúvel. Sentíamos juntos e nosso movimento parecia estar sendo comandado por uma única central de controle. Ou descontrole.

O segredo que vivemos eu nunca tinha tentado colocar em palavras. Elas são apenas uma aproximação possível. O que se passou em nossos encontros – que agora revivo neste corpo envelhecido e cansado – jamais será traduzido por meras letras. E por isto não nos olhamos hoje: não por vergonha, medo, rancor. Fingimo-nos estranhos porque nos sabemos um no outro, embora a vida ou nossa covardia nos tenha afastado. E ela própria, como que por gracejo ou escárnio, aliada ao zombeteiro destino, nos coloca nesta encruzilhada, a centímetros de distância, ou melhor, de proximidade, que por pouco não se materializam em labaredas. É a prova de que somos marionetes nas mãos das divindades que, fanfarronas, divertem-se, brincando com a fragilidade humana. São dois velhos que se cruzam diante de um muro depois de cumpridas suas tediosas e insignificantes tarefas diárias. São dois corações recém-nascidos dados à luz por este encontro.

Pé no chão

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Acordou sem saber exatamente onde estava. Sempre que tinha essa sensação matinal, receava abrir os olhos imediatamente. Era uma arte que dominava: a de permanecer com as pálpebras cerradas e abusar de seus outros sentidos, que funcionavam como uma espécie de GPS interno localizando-a no espaço geográfico. Permitia-se sentir o cheiro do ar, o corpo tocando a superfície sob ela – lençol, rede, sofá, grama, areia, caçamba de caminhão… Já havia acordado em tantos lugares inusitados. E, embora a manhã não seja a hora mais rica de ruídos, tirava proveito de seu aguçado ouvido para situar-se. Nesta manhã, foi o ressonar de seu vizinho de travesseiro que ativou sua memória e a trouxe do mundo dos sonhos de volta para o colchão quente das primeiras horas, já ensolaradas, daquele domingo de agosto.

Tinha chegado a Xapuri na noite anterior depois de doze dias desde que desembarcara em Manaus. Embora costumasse viajar sem destino fixo, pretendia chegar à Bolívia ainda este mês. Vinha pernoitando em lugares não planejados e se deslocando da forma mais barata que aparecia. O improviso era um talento que ela sempre exerceu com primor, mas sua habilidade camaleônica de se agregar aos grupos mais diversos era realmente sua característica campeã. Não se esforçava para agradar a ninguém. Nunca aprendera a arte dos jogos de poder. Era sincera e profundamente autêntica, e isso, de alguma maneira, exercia um encanto sobre os que a conheciam. A luz que emanava de seu rosto quando algo ou alguém a interessavam funcionava como um pêndulo hipnótico diante de seu interlocutor. Não que fosse fácil impressioná-la, mas se algo a deslumbrava, seus olhos de onça transmitiam uma verdade tão profunda, que só restava encantar-se por ela.

O companheiro de sono era um biólogo, ativista, que chegava a Xapuri para conhecer a terra do mais ilustre filho do Acre, Chico Mendes. A paixão com que defendia a causa dos povos da floresta teve aquele efeito sobre a moça. Interessou-se involuntariamente pela voz saída de sua boca rasa, pela expressão que suas sobrancelhas angulosas davam a seu olhar calcinante, pelo seu fervor. Foi ele começar a falar sobre as injustiças históricas contra índios, seringueiros, castanheiros e ribeirinhos e o rosto dela se acendeu do tal jeito que induz ao transe. Mais que a carona gratuita a meio caminho da Bolívia, seu fraco por homens veementes e de barba cheia a impeliu a embarcar no seu jipe Niva vermelho enlameado, do qual parecia se orgulhar.

Depois de finalmente abrir os olhos, ela levantou-se com a sutileza e a agilidade de um felino e sentou-se na janela que passou a noite aberta. Na mata úmida, um cachinho de pitomba a convidou para o desjejum. Pulou a janela. Quando a sola dos pés tocou a folhagem ainda molhada do sereno remeteu-se ao tempo em que corria descalça no terreiro da casa da Tia Cocota. Era sempre agosto quando a família visitava a Serra, para a Festa do Rosário. Lembrou-se das caveiras de abóbora que ela, os irmãos e o primo faziam para assustar a vizinhança à noite, e de tantas outras vezes em que os pés desnudos lhe trouxeram felicidade nessa vida.

O meio do mato era para ela o equivalente ao colo da mãe. Sabia que existia uma relação entre a sensibilidade das plantas e o processamento dos pensamentos intuitivos no seu cérebro. Como elas, Mariana captava e reagia os estímulos daquele ambiente para ela tão familiar. O que a movia para longe da cidade, dos relógios, das redes sem fio e das ondas de rádio, era a necessidade de se aproximar de uma essência natural externa e interna. Da natureza propriamente dita. Ela precisava voltar a colocar os pés no chão para sentir-se de novo reconectada a sua verdadeira fonte de vida e energia. O seringal, a doçura da fruta e o contato da pele com a ramaria e os galhos caídos diluíam as fronteiras do seu corpo e a uniam com o todo ao seu redor. Sentiu um vínculo indissolúvel com o ar parado, as árvores, os raios de sol que penetravam por entre as altas copas de muitos verdes, o passarinho sobre o frágil galho. Por seus poros entravam e saiam luz, e ar, e vapor, e seiva.

O tempo pareceu uma medida inútil, mas era domingo em um canto do Brasil, em um rincão do mundo.

Doze Pubianos

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Doze Pubianos

Eu já os vinha observando nascer nos últimos meses. Primeiro embaixo do braço, depois lá. Eu não gostava de nada daquilo de virar adulta. Ficava tentando ignorar, embora nem sempre com êxito. Um ano antes, quando percebi que meu mamilo começou a inchar um pouco, a doer um pouco, deixei de tomar banho junto com meu irmão. Fui disfarçando até ele se acostumar. Droga! Eu não queria ser mocinha. Graças a deus, ainda não tinha ficado menstruada. Naquela época minhas tardes eram feitas de piscina, patins e barbies. Mas na foto, no dia da minha festa de aniversário de doze anos, ficou evidente minha falta de jeito com a chegada da adolescência.

Muita coisa permanecia igual: meu cabelo comprido embaraçado e queimado de cloro, a grama ainda cinza de setembro, recém-tocada pelas primeiras chuvas, a sunga verde encardida do meu irmão, a Naya, a Sarah, a Lu, as garotas do colégio formando uma roda, a brincadeira de toque de bola e aquela farra que se repetia nos churrascos de aniversário lá em casa. Na foto, eu estou no meio da roda. Eu tinha sido queimada pela bola na rodada anterior. A Denise estava lá também há três rodadas. Eu poderia estar feliz no meu maiô amarelo de babadinhos, esperando um toque da bola para voltar para a roda. Mas estava era desengonçada, segurando um pano, jogado sobre o maiô, uma invenção de saída de praia mal ajambrada, que se propunha a cobrir alguma coisa. Pouco antes do jogo de bola, fizera uma incômoda descoberta.

Foi quando entrei em casa para atender um telefonema da vó Maria, que não pôde ir à festa. Ela nunca gostou muito de sair de casa, mas sempre se lembrava da data e me mandava ir lá depois buscar a caixa de bombons. Recebi os parabéns, pus o telefone de volta no gancho e passei na frente da cristaleira da sala, toda espelhada. Parei. Tinha algo de errado no meu reflexo. Uma penugem ultrapassava os limites do meu maiô e transbordava as margens inferiores. Eu tinha encompridado no último ano. O maiô ficou mais cavado na frente. Alguns pelos sutis e ainda fininhos, querendo encaracolar, invadiam o território da minha virilha.

Corri para o primeiro quarto que se apresentou no corredor e achei um pareô florido da minha mãe. Enrolei no corpo, tentando fazer dele uma espécie de vestido mula-manca, com um nó sobre um dos ombros. Um toque de estilo para justificar. O pano era comprido o suficiente para cobrir a virilha e o iniciozinho das coxas. Saí assim esperando que ninguém notasse a diferença. Será que todo mundo já tinha visto e eu fui a última a saber? Torci para que ninguém estivesse preocupado com detalhes. Mas aquele detalhe, aqueles insignificantes pelos, muito mais do que a data no calendário, marcaram minha passagem. Eu pressenti que, por mais fora de hora que parecesse, eu estava começando a me tornar mulher. Mesmo assim, juntei-me à roda e fui brincar de bola.

Canto pra dizer que no meu coração

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Na verdade, eu queria ser cantora. Queria palco e minha voz no rádio e na TV.

Quando eu era criança, minha mãe colocava minha irmã e eu para cantarmos para os tios e primos. Minha irmã odiava e eu gostava. Sempre queria cantar mais uma. Ela vetava com seu olhar de lado e eu esperava ansiosamente o próximo encontro familiar para sentir aquele gostinho do público inteiro parado olhando para nós.

 Aos oito anos eu decorei meu primeiro poema. Numa época de vacas magras, minha mãe armou uma gincana com tarefas diárias para ocupar nossas férias. Mandou logo um Neruda, que no primeiro verso se perguntava “Há que voar neste tempo, aonde? Sem asas, sem avião…” Depois fui entender que eram perguntas que partiam do próprio coração dela. Bem, a métrica soou para mim como música sem melodia. Naquele janeiro deserto e chuvoso conheci Neruda e aprendi a fazer bolo.

Aos nove, meu pai quis me matricular na aula de piano, mas como não tinha vaga, fui aprender a tocar teclado. Acabou com o glamour da coisa, mas eu topei. Tive uma professora que passava rímel lilás, verde, azul. Achava curioso. Tive um amor platônico, aos onze, pelo meu segundo professor, o Cesar, que conseguia tocar de costas, passando as mãos por trás do ombro e teclando sem olhar para trás. Apaixonei-me pela peripécia.

Eu era boa nas provas de solfejo, afinada. Achava fácil acertar o dó, o ré, o mi, o fá até chegar no outro dó. Era só lembrar a música da Noviça Rebelde. A gente cantava “O Caderno”, do Toquinho, “João e Maria”, do Chico. A imagem de “agora eu era herói e meu cavalo só falava inglês” era de uma colina verde, com um castelo em cima e eu sempre queria chorar na última estrofe, “pois você sumiu no mundo sem me avisar e agora eu era um louco a perguntar o que que a vida vai fazer de mim?”.

Mas o que eu mais gostava era no final da aula de coral quando a turma toda se espalhava pelo chão de olhos fechados e a professora tocava “Suíte Brasília” no piano. Uma melodia tão linda, eu no escuro das minhas pálpebras, deitada no chão friozinho, percorria mentalmente a Esplanada dos Ministérios à noite, iluminada pelas luzes de natal. Eu sobrevoava os prédios do Congresso e a Catedral como a Sininho sobre o castelo da Disney.

Minha irmã aprendeu a tocar violão e eu sentava na cama dela para ler as letras, ao seu lado, enquanto ela lia as cifras. O professor dela tirava cópias dos songbooks do Caetano, do Gil. Eu achava uma audácia cantar “vaca profana”, tinha até um certo medo de pronunciar aquela frase das divinas tetas, que achava tão ousada! A unha curta apertando o braço do violão, as letrinhas em caneta sobre as frases impressas, as harmonias que ia dedilhando, tornavam atemporais aqueles encontros no seu quarto lilás.

Um dia ela aprendeu a tocar Aquarela, do Toquinho, e firmamos de vez nossa dupla imbatível. Durou pouco porque “ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está” e o futuro que “não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de chegar”, a levou. Ela se foi, seu último registro fotográfico foi com seu violão e um sorriso tímido, como aqueles que ela esboçava na época em que a gente cantava para a família. Até hoje viajo de volta para aquele quarto, se fechar os olhos e pronunciar as palavras mágicas: “numa folha qualquer…”

O quarto virou um santuário e eu fui cantar por outras praças. No auditório da minha nova escola, a capella, num concurso de talentos. Por ironia, a música chamava-se “Someone to watch over me”. Ganhei. Cantei na igreja, no chuveiro todos os dias, cantei “Message in a bottle” numa campanha televisiva a favor de outras crianças em algum país pobre, cujo nome não me lembro mais. Cantei numa banda onde eu era a única adolescente e o líder da banda um dia encostou no meu peito e eu não quis mais fazer show.

A música me acompanhou desde o “primeiro rabisco” até “quando surgiram meus primeiros traços de mulher”. Como boa adolescente brasiliense, decorei todas as músicas do Legião e do Paralamas, e depois do Kid Abelha, do Lulu e, finalmente, da Alanis. As letras de drama exagerado descreviam a sofrida fase de transição que todos que chegamos aos vinte anos somos obrigados a passar.

Daí quando eu fiquei adulta o samba me invadiu. Com o Rio de Janeiro de cenário, foi a trilha sonora de um casamento que acabou. Só que eu não deixo o samba morrer e não deixo o samba acabar, então de vez em quando ainda retorno às rodas para cabrochear e suricar nos ouvidos dos instrumentistas.

Quem olha para roda e me vê fechar os olhos e levantar as mãos em êxtase ao som de “chora, não vou ligar, chegou a hora, vais me pagar…” é capaz de ver que dentro de mim tem uma cantora nunca descoberta, que se liberta ali, com alguns copos de cerveja e um bom batuque.

 

Instruções para se despaixonar

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Para me desapaixonar, o terapeuta recomendou não escrever um diário sobre meus sentimentos, serão lamúrias vazias e no final descobrirei que a culpa foi toda minha e isso vai me levar à depressão e eu vou acabar comendo três refeições diárias de trash food pedidas pelo telefone e engordarei doze quilos em dois meses e meu cabelo vai cair. Faça tudo isso de engordar e cair cabelo e se autoflagelar sem escrever no diário porque diário só serve para outras pessoas lerem, se identificarem e aprenderem com sua dor. Mentira.  Ninguém aprende com os outros. Serve no máximo para quem já passou e já se recuperou rir um pouco de si mesmo, quando estiver já recuperado e feliz com o novo amor, e esses são poucos, então não serve mesmo para muita coisa. Não tira ninguém do buraco.

Para me desapaixonar, minha amiga recomendou ir para a academia malhar duas horas por dia e aproveitar para ficar gostosa e trepar com o personal. Na onda de ficar gostosa você vai para lá vestida num daqueles macacões colados e aproveita para descolar mais umas trepadas com os fortões. Depois de malhar muito e trepar muito e descobrir que isso não aumentou em nada a sua autoestima, você se matricula na ioga e torce para ficar com uma expressão mais serena e de repente trepar com o professor de ioga, menos sarado, mas gostosinho e comedor como os outros.

Para me desapaixonar minha faxineira recomendou lavar a louça depois do almoço, não deixar juntar barata, ser mais organizada. Mandou comer mais farinha e menos mato, dar uma encorpada, fazer frango caipira, que essas meninas de hoje não sabem mais prender marido em casa. Ela recomendou parar de estudar tanto, afinal para quê serve tanto estudo se nem carro você tem, e a minha diária também não aumenta. Homem gosta é de moça que sabe cuidar da casa e que tem quadril largo para ter menino. E vê se arruma uma religião, mulher. Deus abençoa.

Para me desapaixonar minha mãe recomendou voltar para aquele namorado ambicioso da época de faculdade, que até hoje solteiro sofre dor-de-cotovelo pelo término precoce de um romance muito promissor. Bem sucedido, hoje é proprietário de três fazendas de cana no Goiás, negócios em ascensão com o aumento da porcentagem de etanol na gasolina. Está com casa no Lago e você terá babá e cozinheira e caseiro para limpar a sujeira dos labradores no quintal. Ele continua esbelto e não com aquela barriguinha de chope do seu ex-marido, aliás, aquele príncipe nem bebe. Não se preocupe, minha filha, tédio é o menor dos males.

Para me desapaixonar minha irmã cosmopolita quase mística recomendou que eu vá para a Índia e me enfurne num antro de heroína durante três meses.  Recomendou que eu não saia viva de lá, nem em condições mínimas de sobreviver ao cold turkey. Seria pior do que o que você está passando agora, mana. Pelo menos as tias e a vó e nossas amigas de colégio, que viraram todas patricinhas pseudozen, vão preferir acreditar que você teve um encontro face-a-face com Shiva e seu corpo queimando sobre o Ganges foi um gesto sacrificial purificador.

Para me desapaixonar escrevi diário e blog anônimo e ruminei inutilmente palavras e olhares e esperas e ausências e gritos e negligências e fantasias e sofri e ninguém aprendeu nada com isso e eu comi porcaria e bebi desenfreadamente. Para me desapaixonar levei gato por lebre, sexo por carinho e foram dezoito picas, umas boas outras terríveis, de sarados e magrelos, tarados e brochas, babões e arrogantes, meninos e maduros, delicados e selvagens. Me machuquei. Me refestelei. Pirei. Parei de lavar louça, parei de usar a louça, abandonei a despensa e deu bicho e carunchos. Procurei ex-namorado rico mal resolvido, pobrezinho, e suguei dele toda a crença no amor e fugi do quarto de hotel cinco estrelas enquanto ele dormia e não morri de tédio, mas de remorso. Não morri de overdose tampouco, não fui à Índia, espalhei-me por outros continentes menos transcendentais e arrastei a bagagem de uma paixão que não me saía, que não me deixava, que não morria nem se apagava, que me corroía e me consumia até que veio o tempo, o tempo certo, soberano, tirano tempo rei e levou tudo embora.